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Posts arquivados em Tag: Oportunidade

21 dez, 2020

Não vemos as coisas como são: vemos as coisas como somos

Se preferir, ouça o artigo

Esta é uma frase de Anaïs Nin e preciso lhe dizer que acredito que ela foi extremamente feliz quando a mencionou. A Anaïs viveu no século passado, uma pena, pois eu gostaria de comentar a ela o quanto concordo com sua citação. Sempre vão existir diferentes formas de ver o mesmo cenário. Há quem aproveite um dia de chuva para se jogar em um banho e agradecer a natureza, e neste mesmo acontecimento pode ter alguém xingando aos céus por essa água cair exatamente no momento em que saiu para a rua. Como sempre menciono a você, aqui não existe certo ou errado e nem escolha de lados e sim, oportunidades, tanto para mim quanto para você de nos colocarmos a pensar individualmente se estamos felizes e satisfeitos com a forma como estamos agindo e levando nossas vidas. Não acredito em coincidências e por essa razão me peguei rindo pela manhã enquanto lia meu livro do momento que veio corroborar exatamente o que comecei a escrever neste artigo ontem e que “por alguma razão” não estava fluindo.


O livro em questão é “Em busca de sentido“¹ de Viktor E. Frankl, e nele o psicólogo/autor fala sobre o comportamento das pessoas e, sua própria vivência, em uma situação-limite como o campo de concentração, nesse caso Auschwitz. Não vão haver spoilers por aqui, até porque é de conhecimento público o que aqueles prisioneiros enfrentaram, mas como mencionado por Viktor, existem momentos extremos como privação de sono, comida, de liberdade e tudo que se reflete a partir disso, mas ainda assim há possibilidade de escolha de como aquilo será enfrentado. O psicólogo menciona de forma tão delicada através de seus olhos atentos que mesmo uma pessoa sob aquelas circunstâncias pode optar, em um sentido espiritual, se será um típico prisioneiro de campo de concentração e portanto se entregando de forma vencida àquele momento ou um ser humano que luta para conservar sua dignidade, mesmo que mínima. Nós não precisamos pensar no mais extremo para valorarmos nossa vida, tudo bem que às vezes é necessário para enxergarmos a realidade, mas é importante que tenhamos em mente que um dos sentidos de nossa existência se refere a atitude que teremos perante momentos árduos e penosos.


Falo que não precisamos ir em casos tão longevos, pois vivenciamos hoje um cenário assim, como o de campo de concentração, salvo obviamente suas individualidades, onde também temos privações, uma das primordiais, a nossa liberdade de ir e vir e de estarmos perto de quem amamos. Isso é real, isso é palpável e lhe pergunto como você age perante esse cenário? E não estou entrando no mérito de sair ou não sair, manter o isolamento ou não, isso cabe a consciência e reflexão de cada um, mas o questionamento aqui é mais sobre como você vê isso? Buscou neste período ver só o seu lado de não poder sair, fazer as atividades que gosta, estar com quem se ama ou aproveitou uma situação de privação para poder se conhecer, descobrir em você razões para lhe manter de pé ou acabou por se afixar a ideia de que tudo está um horror, nada melhora e apontando dedos para quem agia diferente de você? O autor traz à tona algo que prefiro colocar ipsis litteris… “Essas pessoas estão se esquecendo de que, muitas vezes, é justamente uma situação exterior extremamente difícil que dá à pessoa a oportunidade de crescer interiormente para além de si mesma.”².

A reação que você terá sobre determinada situação diz muito mais a respeito de você do que a circunstância propriamente dita. Os cenários nos são colocados para que possamos aprender a nos desenvolver. Podemos nos colocar como reféns e vítimas das circunstâncias que vivenciamos, mas isso nos tira toda capacidade de escolha e de liderança da nossa própria caminhada. Não importa o que esteja acontecendo lá fora, não importa o que esteja acontecendo na sua vida, a escolha de como ver as coisas cabe unicamente a você e ela pode trazer uma mudança substancial na sua jornada. Optei por trazer um cenário dolorido e carregado para que não existam desculpas, de você com você mesmo. A vida vai nos colocando percalços, não há como fugir disso, porém, a forma como vamos enxergá-los pode ser mudada a qualquer instante basta querermos, está escolha sim nos compete. Se dentro de um campo de concentração havia a possibilidade de escolha entre abandonar-se a cada dia um pouco mais esperando a hora da sua morte ou vencer-se internamente a cada instante, você quer mesmo me convencer de que não há possibilidade de mudança na sua escolha? Penso que está na hora de mudar a forma como você vê as coisas.


¹ FRANKL, Viktor E., Em busca de sentindo: um psicólogo no campo de concentração/ 49 .ed. São Leopoldo: Sinodal ; Petrópolis : Vozes, 2020.

²FRANKL, Viktor E., Em busca de sentindo: um psicólogo no campo de concentração/ página 96.

06 out, 2020

Porque fiquei sem escrever

Mulher sentada em um tronco de árvore
Se preferir, ouça o artigo

Acho que quem acompanhava o blog antes viu que eu escrevia três vezes por semana, e há um artigo mencionando que assim o seria, mas também deixei em aberto caso houvesse necessidade/vontade de mudar e foi o que aconteceu. Em um dado momento me senti cansada e cobrada, por mim mesma, para escrever com frequência, manter uma entrega ótima e dar conta das coisas do dia-a-dia. Percebi que estava ficando ansiosa com toda a função de escrever os artigos, buscar imagens, revisar, gravar o áudio em um momento que não houvesse barulhos externos – em algumas situações mais de três, quatro, cinco tentativas – dois dias de descanso e vamos tudo de novo. Senti que estava em um fluxo que não me deixava satisfeita, o fluxo de energia não se completava percebia-o saindo e sem retorno. Parei, me vi triste e parecia que aquilo tudo já não me trazia entusiasmo, me permiti sentir, entender o porque não estava mais fluindo da forma como antes e sem previsão de volta me deixei levar por mais essa oportunidade de me conhecer.


Juntamente a isso, a minha avó paterna faleceu, ela já estava doente mas se tem algo que não adianta o que façamos nunca estaremos preparados é para essa visita. Minha avó era de uma simplicidade mas ao mesmo tempo transbordava um conhecimento tão único, o da vida. Estar perto dela era estar em casa, Dona Cleonice tinha uma capacidade de nos trazer de volta a realidade da vida, mostrando muitas vezes, sem mesmo querer, aquilo que realmente tem importância. Ela foi uma mulher com uma força que eu jamais vi, e não digo só emocional, era física mesmo, ela era um tanque, só tive noção disso quando estava crescida. Era maravilhoso acompanhá-la cozinhando, era como se ali estivesse acontecendo uma alquimia e o sabor? Quando fecho os olhos, ainda posso sentir. A emoção que ela transmitia quando costurava era de paixão e entrega e percebo agora o quanto ela estava presente enquanto se esmerava em suas bainhas. Minha avó viveu umas cinco vidas só nessa e eu senti que precisava me silenciar para reconectar um pouquinho com essa força que veio para mim por DNA. O momento não era de escrita e sim de sentir, só sentir.


E por que estou dividindo algo tão particular com você? Porque minha intenção aqui é sempre ser sincera com quem me acompanha, compartilhar minhas experiências e mostrar, mais uma vez, que também tenho meus altos e baixos e minhas inseguranças. Mesmo abordando com frequência em meus artigos sobre respeitarmos nosso tempo, sobre lidar com nossa mente sabotadora – no meu caso a Cláudia -, quando me apercebi havida sido pega novamente por um gatilho e cedi a ele. Essa é uma oportunidade tanto para mim quanto para você que lê isso percebermos que não estamos sozinhos nestas situações, elas SEMPRE irão acontecer por mais que acreditemos estar preparados, basta um descuido e o cenário pode se transformar e ficar denso. A Cláudia tomou conta, mas desta vez não cedi ao ímpeto de tentar afastá-la e a convidei a ficar e buscar entender por qual razão ela tenta me desmotivar das coisas que me fazem bem. Muitas vezes, para entender o que acontece nesses ciclos repetitivos, a raiz de tudo, é necessário olhar para lugares não muito convidativos e bastante doloridos dentro de nós mesmos e isso pode ser deveras intenso e desagradável.

Assim que algumas áreas foram sendo analisadas e aceitas, a vontade de escrever foi voltando devagar como se sentisse mais confortável para sair da onde havia lhe escondido. Esse período foi ótimo para fazer um balanço, avaliar alguns pontos, me abrir para me reconhecer em outros aspectos e entender que temos necessidades de pausas. Posso lhe dizer que agora as coisas estão um pouco mais claras, porém, caso seja necessária uma nova interrupção ela será muito bem-vinda e acolhida como algo natural da caminhada pois tudo é.  Vou lhe dizer mais, olhando agora para esse período, percebi que só o aceitei por estar sempre tentando me ouvir e me conhecer e isso é valioso. Não tenho como determinar a melhor forma de você alinhar essa comunicação consigo mesmo, pois eu também corto um dobrado para apurar a minha, mas posso lhe garantir que você é o único que pode fazer isso por si. Eu poderia ter seguido escrevendo sobre vários outros assuntos mais abstratos, mas qual graça teria se não fosse verdadeira por aqui? Compartilho e divido percalços da minha caminhada mas que poderia tranquilamente ser a sua ou a de qualquer pessoa. Não tenho vergonha nenhuma de admitir meus altos e baixos, o importante é seguir em frente. Tenha orgulho da sua caminhada e faça ela por você.